Investigo como sistemas produzem formas de adequação e como a arte pode tornar instável aquilo que aprendemos a reconhecer como normal.
Sou artista visual e pesquisadora. Minha prática investiga como sistemas sociais, culturais e tecnológicos produzem formas de adequação e como aprendemos a reconhecer, julgar e corrigir aquilo que não corresponde ao esperado.
Interessa-me especialmente o momento em que uma estrutura deixa de parecer uma estrutura de poder porque adquiriu a aparência de normalidade. Ordem, eficiência, moralidade, tradição, profissionalismo, segurança, protocolo e comportamento podem funcionar como formas de organização necessárias à vida coletiva, mas também podem estabelecer modelos restritos de corpo, identidade, produtividade, sociabilidade e existência.
Minha pesquisa se aproxima dessa zona ambígua: aquilo que parece coerente por fora e abriga contradição, exclusão ou violência em seu funcionamento.
A violência contra a mulher constitui atualmente um campo importante dessa investigação. O corpo feminino carrega uma longa história de regulação, representação, julgamento e controle. Sexualidade, aparência, desejo, envelhecimento, autonomia, exposição e ocupação do espaço continuam sendo atravessados por regimes que definem aquilo que pode ser reconhecido como adequado, legítimo ou aceitável.
Esse campo, porém, não delimita toda a pesquisa. Interessa-me o mecanismo mais amplo pelo qual diferenças são transformadas em desvios em relação a uma norma e, sobretudo, como esses critérios deixam de depender apenas das instituições e passam a circular entre os próprios indivíduos.
Não investigo apenas quem é excluído, mas como aprendemos a reconhecer e reproduzir aquilo que um sistema nos ensinou a considerar inadequado.
Minha prática artística nasce dessa investigação.
Trabalho entre imagem, vídeo, som, ambientes virtuais, modelagem tridimensional, avatar, escrita, sistemas digitais, instalação e processos híbridos. Não parto da fidelidade a um meio específico. Cada linguagem entra quando permite construir uma determinada condição de percepção.
Nas obras, procuro criar situações em que aquilo que inicialmente parece coerente, belo, familiar ou organizado comece gradualmente a perder estabilidade.
Há uma dinâmica recorrente nesse processo: impacto, sedução, aceitação, contaminação, desorientação e fissura.
Ela não funciona como um roteiro obrigatório. O visitante entra em um campo e constrói seu próprio percurso. A obra não pretende conduzi-lo a uma interpretação correta nem revelar uma verdade escondida. Interessa-me criar condições para que uma primeira leitura deixe de ser suficiente.
A beleza ocupa um lugar deliberadamente ambíguo nesse processo. Ela não funciona apenas como ornamentação. É uma forma de aproximação. A obra seduz antes de explicar.
Corpos podem se repetir. Estruturas aparentemente sólidas podem entrar em colapso. Imagens podem permanecer incompletas. Elementos podem interferir uns nos outros. A organização continua existindo, mas já não consegue esconder completamente aquilo que não cabe nela.
A inteligência artificial participa de parte dessa prática como uma entre várias tecnologias contemporâneas. Não constitui o tema central do trabalho nem determina sua identidade. Torna-se especialmente relevante, porém, quando sua identificação real ou presumida passa a funcionar como uma classificação suficiente para interromper a leitura de uma imagem.
Nesse momento, “é IA” deixa de ser apenas uma informação sobre processo e pode tornar-se uma forma de fechamento perceptivo: uma categoria utilizada para evitar aquilo que a imagem ainda poderia exigir de quem olha.
A própria tecnologia passa, então, a integrar a pesquisa sobre classificação, adequação e resistência ao olhar.
O sistema organiza para mascarar a contradição. A obra organiza para permitir que a contradição apareça.
Minha pesquisa acontece nesse intervalo: entre aquilo que aprendemos a reconhecer como normal e o momento em que essa normalidade começa a perder sua aparência de evidência.
Não é uma reconstrução neutra de uma galeria. É um dispositivo em formação.
Ensaios e textos sobre arte, inteligência artificial, cultura, sistemas e as formas como tecnologia reorganiza percepção, trabalho e memória.
Uma seleção concentrada dos textos que permanecem mais importantes para esta pesquisa. 6 textos no arquivo.
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Para convites, exposições, colaborações, entrevistas, publicações ou conversas que cruzem arte, tecnologia, imagem, pesquisa e sistemas.